4 de abril de 2010

Clemenzo 150m 5+, Torre Principal, Frey

      Comparando a Clemenzo com a Sifuentes-Weber, as duas tem a mesma graduação. Mas a semelhança acaba aí. Na Principal posso dizer que tive uma experiência de escalada tradicional que ainda não tinha experimentado. Até aquele momento não havia feito nenhuma via maior e com aquelas características. Cordadas longas, proteção exclusivamente em móvel, fenda off-width,  chaminé,  clima imprevisível, rapel complicado e muitas supresas.

Linha da via, paradas e linha do rapel. Marcação aproximada do que fizemos naquele dia.

      Primeira cordada: guiei confiando que seria fácil. E era. Basicamente trepa bloco, fendas de mão e agarras. O problema é a dúvida de entrar sem saber se está na linha da via, se vai encontrar uma parada e que tipo de parada vai encontrar. Errei por uns três metros. Quando ví, a parada estava uns quatro metros para baixo e uns três para o lado esquerdo.

      Segunda cordada: o Bruno seguiu por um caminho relativamente óbvio por platôs. Quando viu a parada, em fitas e cordeletes velhos em volta de um bico de pedra, seguiu mais um pouco pra cima e montou parada em móvel. Acabou fazendo um bom trecho do que seria a terceira cordada. Na verdade, acabou fazendo a parte difícil da terceira cordada, mais vertical. Sobrou a parte fácil , uma transversal, com um vazador nos pés. Obrigado, Bruno! (rsrsrs).

      Terceira cordada: tirando a parte que o Bruno fez por mim (valeu aí!!!), a transversal acabava debaixo de uma fenda vertical que parecia um off-width extremamente difícil. Só de olhar os dois já se cagaram! (rsrsrs)
      Mais uma vez não tinha encontrado uma parada sequer. Comecei a preparar uma parada com fitas em blocos para dar segue para o Bruno. Ainda iríamos decidir quem ia se arriscar naquela fenda, ou quem sabe procurar a variante “Hot Dog”. Resolvi descer num platô uns 3 metros para baixo para dar segue. Nisso encontrei a parada debaixo de mim! Três pitons velhos, cheios de fitas e cordeletes. De novo a parada estava uns três metros pra baixo! (rsrsrs)
      Quarta cordada: Olhando melhor o croqui e olhando para os lados, encontramos a fenda certa mais à esquerda. Na verdade já estávamos considerando encontrar a tal Hot Dog para desviar daquele suplício. Mas o que estávamos olhando e se cagando era alguma coisa qualquer que seria consideravelmente muito mais difícil. Tínhamos encontrado a linha certa da via mais à esquerda. Pelo menos o que encontramos era uma linha onde sabíamos que dava para progredir. O Bruno resolveu guiar, e eu agradeci (eheheh).
      Consideramos esta a parte mais difícil de toda a via. Começava em fendas subindo em alguns blocos até entrar no que seria um diedro com uma fenda no meio. Ótima para colocação dos camalots #3 e #4. A progressão pelo diedro era um misto de chaminé, fenda de mão e muita confiança. Na pior das hipóteses iria se puxando pela peça e levando junto. Cansativo.
      A parada mais uma vez era em bicos de pedra. Interessante observar que, enquanto eu encontrava paradas em pitons velhos, ele sempre acabava em paradas em bicos de pedra. Constatação interessante, e sinistra também.

      Quinta cordada: saindo uns 3 metros para a esquerda da parada, a via fazia um ângulo de praticamente 90 graus e subia. Depois de uns 5 metros subindo chega-se numa caverna. Na caverna as opções seriam seguir por uma fenda, quase toda em artificial, ou entrar numa chaminé. Mesmo identificando que o lance na fenda seria um artificial demorado, segui protegendo e usando todas as paredes em volta tentando progredir, até que cheguei num ponto onde não tinha opção. Fazer em artificial iria demorar muito. Principalmente para mim, sem experiência em artificial. Voltei para o chão da caverna e montei uma parada em móvel. Decidiria o que fazer junto com o Bruno. Seria um erro seguir em frente. A corda já estava pesada devido à quebra de ângulo e não conseguia mais me comunicar com ele.

      Sexta cordada: a via deveria ter acabado na quinta cordada, mas com os problemas surgindo, as cordadas foram se multiplicando. Com o Bruno para ajudar na decisão, mais uma vez ele resolveu fazer o trabalho difícil e foi encarar a chaminé. O psicológico pegou e no meio da chaminé ele volta. Eu volto para a fenda e protejo o mais alto que consigo e volto. Agora sim, o Bruno guia a chaminé com um pouco mais de proteção e vence a chaminé. Depois de puxar as mochilas ele deixa a minha pendurada numa peça e termina a cordada. Na minha vez, subo pela terceira vez a fenda e limpo as peças. Faço um malabarismo para não ter que voltar ao chão e entro na chaminé já no meio dela. Depois de vencer a chaminé e um tetinho logo em seguida, pego minha mochila e sigo até a parada. Neste ponto era para encontrar uma parada de onde faríamos o rapel, mas me deparo com o Bruno numa parada em móvel, de novo!

      Sétima cordada: Nesta altura já estávamos no platô final onde várias vias se juntam. Como não encontramos nenhuma parada, nos preparamos para subir mais alguns blocos e tentar encontrar alguma parada indo em direção à face norte da agulha. Ao subir um pouco, o Bruno já visualiza a parada. Ufa!

      Rapel: se a escalada já tinha nos brindado com algumas surpresas, o rapel ainda traria muito mais. Foi neste rapel que comecei a entender a problemática dos rapéis (rsrsrs).
      O primeiro rapel foi fácil pois conseguimos visualizar uma parada mais abaixo.
      No segundo começou o problema. O Bruno desceu e não encontrou parada. Desci em seguida para tentar ajudar. Quis descer um pouco mais em linha reta, mas o Bruno já tinha feito isso e não tinha encontrado nada. Estávamos perdidos num platô a mais ou menos uns setenta ou oitenta metros do chão. Tínhamos que achar um ponto mais baixo para fazer um último rapel até o chão. Baixei para o lado norte. Um vento absurdamente forte. Desci até a corda ficar na minha mão. Prendi a ponta numa fenda com uma peça para não perder a corda e tentei andar para os lados na esperança de encontrar algo. Nada feito. O Bruno estava na sombra e mesmo sem vento estava ficando com frio. Também ficou preocupado em ficar isolado da corda, pois à medida que eu decia e procurava alguma coisa, estava me afastando dele. Como não encontrei nada,  tive que subir uns 25 metros jumareando com cordeletes. O Bruno batendo os dentes de frio, desceu novamente em linha reta, e desta vez encontrou uma malha rápida com fitas em volta de um bico de pedra. Pô, Bruno! Parada em bico de pedra de novo? (rsrsrs) Pelo padrão, se eu tivesse descido terido encontrado parada em pitons. Mas como foi ele que encontrou a parada, ela estava em bicos de pedra (rsrsrs). Piadas à parte, ainda havia a preocupação de saber se conseguiríamos alcançar o chão naquele rapel.
      Parada encontrada, desci para me juntar ao Bruno e puxar corda. Quando puxo, ela prende. Para nossa sorte, tinha como subir escalando até onde prendeu a corda. Me equipei e subi. A corda prendera num imenso bico um pouco acima do platô onde estávamos perdidos. Desci. Fizemos um backup em outro bico de pedra maior abandonando uma fita do Bruno. Descemos até o chão, enfim!

      No final das contas, fizemos a via em cerca de seis horas. Cronometrando a empreitada toda, foram onze horas e meia.
      Em valores aproximados, gastamos uma hora e meia para aproximação e encontrar a base da via. Uma meia hora se arrumando e tirando algumas fotos. Seis horas de escalada. Umas duas hora perdidas no rapel cheio de problemas. Alguns minutinhos no chão arrumando a tralha e comendo alguma coisa. E finalmente, uma hora e meia se largando pelas pedras e chegando no acampamento.
      Saída do acampamento às 9:30hs. Chegada no acampamento às 21:00hs. Definitivamente, o maior perrengue que já passei. Sensação de ter superado muitos limites. E constatação de que preciso escalar muita parede e buscar o máximo de experiências antes de encarar algo realmente complicado. Aquilo alí é brincadeira de criança e mesmo assim levamos um pau! (rsrsrs)

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